sábado, 2 de fevereiro de 2008

Cântico dos Cânticos - III

(Pintura de Jacques-Louis David. Mars Disarmed by Venus and the three Graces, 1824.
Oil on canvas, 308 x 262 cm. Musées Royaux des Beaux-Arts, Brussels)


III

Ao terminar d´augusto canto,
Como o mirto o sol busca,
Os sedentos olhos se procuravam.
Ao seu cruzar, dela, um ai escapou.

Guerreira destra tocou-lhe a face,
D´aurora cor rosada.
Enxugou da lágrima o rosto.

Tocando seus lábios no sentir dos contornos,
Ergueu o rosto que pendia envergonhado.
Como o colibri da flor suga o doce néctar,
Beijou-lhe a boca bebendo vida.

É vida que buscava; agora tinha.
Qual cipreste lança raízes da Gaia terra,
Enlaçou-lhe o ventre c´os braços.

Num suspiro, ela tremeu.
Incenso d´Amor encheu a noite
Turíbulo era os corpos amantes.
Era da Vênus oblação.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Cântico dos Cânticos - II

(Pintura de Jacques-Louis David. Farewell of Telemachus & Eucharis, 1818)

II

Pelo sacro trabalho inebriado,
Pôs-se a louvar a sua perfeita.
- Como és bela e formosa.

Tuas negras mechas pendem
Qual cachos d´uva maduros,
Prontos para serem colhidos.
E tornarem-se do Baco elixir.

Teu olhar brilhante é o aljôfar
Que repousa no seio da terra.
É o hipnótico canto das sereias.

Tua tez macia, como a lã da ovelha,
Possui a quentura d´areia do deserto.
Teus seios, último fruto da macieira,
São os vales escarpados que nos cercam.

Teus lábios, fontes nunca escassas,
Rubros como o pecado de Adão,
Vertem caudalosamente a Infusão da Longa Vida.

Não macules a alvura da tua face
Com o róseo do envergonhar.
Porque não hei mentira no meu cântico,
O Perfeito, por este erro, não poderá me culpar.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Outros poemas - I

I
Teu olhar é a flecha do arqueiro,
Penetrante como a seta,
Dilacerador como o golpe do guerreiro,
Enigmático como as palavras dos sábios.

Teus olhos são a noite escura,
Brilhantes como o cristal à luz do sol,
Límpidos como a água que desce das montanhas,
Profundos como os abismos da Terra.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Cântico dos Cânticos - I

(Pintura de Stanislaw Maslowski. Moonrise, 1884 - Nation Museum, Polônia)


I


Derrama caudalosa a argírica luz,
Globo ebúrneo de precioso encanto,
Imaculada, alva, pura,
Qual ligeira flecha d´Ártemis.

Contemplando a onírica pintura,
Das mãos divinas trabalhada,
Jaz o Amado e a Amada.
Deitados, unidos... Não dois, apenas um.

Vacilante, a faísca do heféstico trabalho
Risca do Zeus grego a morada.
- Faça um pedido! diz o Amado à Amada.